segunda-feira, 11 de outubro de 2010

A Disseminação da Desordem


Incrível como os bairros de uma cidade grande são heterogêneos em termos de pichação e sujeira, né... Pois é. Peregrinando por BH (mas óbvio que esse contraste não é exclusivo de BH) acabei me lembrando de um artiguinho meio antigo (dezembro de 2008) publicado na Science com o interessante título de “A Disseminação da Desordem”. Nele, um grupo de pesquisadores holandeses tenta testar a “Teoria da Janela Quebrada (TJQ)”.

Talvez vários de vocês já tenham ouvido nessa teoria (Broken Windows Theory, no original), proposta por Wilson e Keling em 1982. A idéia básica é que sinais de “desordem” como janelas quebradas, pichações, e lixo acumulado na rua, acabariam induzindo mais desordem na sociedade através do aumento de comportamentos desordeiros e mesmo de pequenas contravenções. Essa idéia está por trás de todas as políticas públicas tradicionalmente conhecidas como “tolerância zero” implantadas em diversos países, e que têm na Nova York de Rudolph Giugliani talvez seu exemplo mais conhecido. A questão fundamental aqui, portanto, é: “Existe alguma base científica que justifique a teoria da janela quebrada?”

Kees Keizer e seus colaboradores, todos da Universidade de Groningen, argumentam que todos os relatos até agora publicados sobre a validade, ou não, da TJQ vêm de relatos de correlações, e de fato, correlações podem ser espúrias como explicativas de causalidade. Por exemplo, digamos que eu verifique uma correlação entre o número de assassinatos em uma cidade e seu número de escolas. Alguma relação de causalidade aí? Provavelmente não, já que quanto maior uma cidade, maior seu número de escolas e também o número de assassinatos lá ocorridos... Bem, o que Keizer e cols. pretendem é testar pela primeira vez de maneira direta, não-correlacional, a TJQ (uma versão final pode ser baixada aqui - embora sem o formato final da revista).

Resumidamente, eles bolaram seis experimentos e os executaram em Groningen. Em todos eles, os participantes foram cidadãos comuns que não sabiam que estavam sendo observados. Em três dos experimentos, foi avaliado se o fato de atirar ou não lixo no chão estava associado com: a), uma vizinhança (uma mesma rua foi usada) livre ou não de pichação b) um estacionamento de supermercado sem ou com carrinhos de compras espalhados pelo lugar, ou c) um ambiente com ou sem ruídos de fogos de artifício (segundo os autores há uma lei bem conhecida na Holanda que proíbe o uso de fogos de artifício na semana que antecede o ano-novo – o estudo foi feito nessa semana). Em outro cenário, foi avaliado o fato de atalhar ou não por uma passagem proibida estava associado com o modo como bicicletas estavam estacionadas na cerca de proteção (de acordo com uma placa indicando proibições ou em desrespeito à ela); e, finalmente, o último experimento avaliava o ato de furtar ou não um envelope mal-colocado em uma caixa de correios, onde uma nota de 5 euros estava visível em seu interior, quando a caixa de correios estava limpa, pichada ou com lixo espalhado ao seu redor.

Em TODOS os casos, as diferenças entre as situações de ordem e de desordem foram estatisticamente significativas. Nas situações de atirar lixo no chão as diferenças (em percentual, ordem VS. desordem) foram 33% vs. 69%, 30% vs. 58%, e 52% vs. 80% respectivamente. Bastante impressionantes, não? Pra mim é interessante que no último caso o percentual na situação de ordem foi bem mais alto que nos primeiros experimentos... efeito do ambiente anterior de onde os sujeitos vinham (próximo a uma estação de trem)? Nas outras situações ficou assim: o atalho foi usado em 27% vs. 82% das vezes, e o envelope, nas situações de ordem, pichação, ou lixo, foi furtado em 13%, 27% e 25% das vezes, respectivamente. A sugestão dos autores é que quando os sujeitos (e por “os sujeitos” leia-se seres humanos. Ou seja, nós) percebem que uma determinada regra não é seguida isso nos sugere que outras regras não precisam ser seguidas naquele ambiente, em conformidade absoluta com a TJQ!

O que eu acho especialmente legal nesse trabalho é que o desenho experimental me pareceu muito bem feito. Claro, poderíamos sempre nos questionar o quanto os mesmos resultados seriam corroborados por estudos em outras cidades. Como essa não é uma literatura que eu acompanhe, confesso que não sei se isso já foi feito e com que sucesso. De qualquer forma, a mensagem é clara, a política de tolerância zero parece ter base para funcionar.

Tinha um comercial dos pneus Pirelli que dizia que “potência não é nada sem controle”. Pois parece que civilização também não é nada sem controle.

6 comentários:

MORALES disse...

Neco, gostei muito, especialmente dos exemplos arrolados.
No final não pude deixar de lembrar do Barão de Itararé que disse, como tu bem sabes, mais ou menos o seguinte: De onde menos se espera é daí que não sai nada.
Achei muito interessante para fazer um conto, tendo a TJQ no meio da história a apontar o destino inexorável da personagem.
Abração
Ricardo

Nicolás disse...

Falando um pouco mais sério, essa dinâmica do comportamento dentro de grupos sociais é interessante. Algumas atividades consideradas tabus, ou ainda socialmente repudiadas, tornam-se permissivas se os demais membros do grupo fazem. E isso não tem muito relação com o grau de instrução, ou educação do indivíduo. Um exemplo intuitivo são os engarrafamentos nas grandes cidades. Se a pista engarrafada tiver um acostamento livre, basta alguém usar a malandragem de rodar por ali apenas uma vez para que o acostamento vire uma pista de rodagem convencional.

Lembro bem de uma vez que saí para jantar em um rodízio de pizza, com um grupo de amigos, todos oriundos de classe média e com educação superior completa. Éramos muitos (uns 15, eu acho) e o garçom se perdeu nas contas. Na hora que ele apresentou a fatura, nos demos conta que ele havia esquecido de cobrar o rodízio de umas 5-6 pessoas. Seria um belo rombo para o restaurante. O óbvio seria chamar o garçom e informar o erro, certo? Errado. O que aconteceu foi que alguns quiseram se dar bem, pagando menos, e incitaram os demais a fazerem o mesmo. De umas 15 pessoas, somente 4 fizeram questão de pagar o valor integral, enquanto os demais fora incitados pela "desordem" e saíram no lucro.

Um outro exemplo de interação social e caos. Golfinhos são meigos, simpáticos e inteligentes, certo? Errado. Quando grupos de machos se unem, saem em bando pelos mares estuprando fêmeas de outro bandos e espécies, e ainda tem por esporte espancar golfinhos de outras espécies, baleias e tubarões. A explicação? A teoria diz que o bando tem um Q.I. igual a média dos indivíduos ali presentes. Logo, o seu grupo social é tão inepto quanto o seu amigo mais idiota. O mesmo poderia ser extrapolado para valores culturais.

A questão arbitrária é definir o que é desordem. Outro é definir controle. Ou será que a coação funciona melhor para modular comportamentos?

Evolutivamente, a maior parte do controle em grupos sociais existente vem da coação. Talvez uma das únicas exceções seja a modulação comportamental nos bonobos.

Agora tu imagina se o Governo Chinês relaxa a mão e abre o regime de controle em um país com 2,2 bilhões de habitantes...

Liliana Maria Rosa disse...

Também em relação ao comportamento humano já foram realizados estudos que, de certa forma confirmam a teoria das janelas quebradas. Olhem só, para vocês nos distantes anos 60, pesquisadores como Albert Bandura, da universidade de Stanford fizeram experimentos com crianças de pré escola, que eram expostas a vídeos onde outras crianças agrediam um boneco inflável. Existia um grupo de controle que assistia também um vídeo com o mesmo boneco, sem os comportamentos agressivos.
Na volta às suas salas de aula, as crianças encontraram um boneco semelhante. O número de crianças que agrediu o boneco na sala de aula foi significativamente maior entre aquelas que haviam visto as agressões no vídeo, do que entre as do grupo controle. O interessante é que as crianças não se limitaram a repetir as agressões observadas, utilizando-se também de outras formas e contra outros objetos.
Estes estudos faziam parte de um todo maior que tratava da aprendizagem de comportamentos através da observação e do que eles chamaram de reforço vicariante, ou seja as crianças foram reforçadas ao comportamento agressivo, pela observação da satisfação que outras crianças demonstravam ao agredir.
Além do reforço à repetição do comportamento observado houve, claramente uma liberação de outros comportamentos do mesmo tipo.
Na teoria das janelas quebradas, houve também uma liberação à desordem mais geral e não só a repetição de quebrar janelas, por exemplo.
Estudos deste tipo foram execrados naquelas décadas de 60, 70, e 80, principalmente quando envolviam seres humanos; isso porque faziam pensar em um determinismo no agir das pessoas por condicionamentos externos. No Brasil, por exemplo, vivíamos um regime político de excessão, ou uma ditadura, onde era proíbido expressar idéias que não se adequavam ao ideário governamental, então a luta contra qualquer tipo de coação se estendeu também às teorias comportamentais de condicionamento, como se aceitando a possibilidade de condicionamentos se estivessem aceitando que assim deveria ser toda a educação, prescindindo de raciocínio e criatividade.

Alice disse...

Lendo esses comentários eu me lembrei do filme Laranja Mecânica. Mas no filme era ao contrário, o governo pretendia causar aversão à violência mostrando cenas de crimes e formas extremas de violência (na verdade eles davam um remédio pro cara se sentir enjoado e esperavam que ele relacionasse a violência ao enjôo,
ou seja, uma coisa ruim). E no filme funciona,pelo menos por um tempo.

Ia ser muito melhor se a gente visse essa bagunça e sujeira e, ao invés de sair bagunçando tudo e quebrando as janelas, nós sentíssemos um enjôo.

Mas a coisa toda é mais complexa mesmo...

Carol disse...

Ah, que legal esse teu textinho! Agora tava pensando, esse título.. "A disseminação da desordem", não sei porque me veio o Ber na cabeça! Ahahahahhaha

Vanina D. Heuser disse...

No primeiro episodio do "V" ele dizem que a "Disseminacao da Desordem" é feita pelos aliens para que todo mundo fique desesperado e ponto de aceitar o "acordo diplomático" com os invasores.

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